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Dos antecedentes à atualidade  (baseado num trabalho de Francisco Castelo)

A história das bandas filarmónicas em Portugal está intimamente ligada à história do movimento associativo e remonta a meados do século XIX. Uma das teorias que pretende explicar a sua génese atribui às bandas militares a sua criação. Existindo, porém, referências a formações cuja origem é anterior ao aparecimento das bandas militares, facilmente concluímos que para o surgimento das bandas filarmónicas terão contribuído dois modelos formais. As bandas propriamente ditas, que terão sofrido a influência das bandas militares e, paralelamente, as filarmónicas, figurino herdado das sociedades de concerto inglesas (associações de elementos que exercitavam a música de câmara). As filarmónicas terão assim surgido no nosso país pela influência dos súbditos de sua majestade1.

 

A alusão mais antiga feita a uma banda filarmónica do Concelho de Lagos refere a "Phylarmonica Recreio Musical" fundada em 1 de Dezembro de 1894 e que em Novembro de 1902 solicita ao Clube Artístico Lacobrigense o salão desta coletividade para aí proceder às festividades do seu oitavo aniversário2. Sobre esta banda pouco ou nada se sabe, quer quanto à sua composição, quer em relação à localização da sua sede e relacionamento com a comunidade. 

 

Por volta de 1915 terão co-existido em Lagos, com a banda militar, três agrupamentos civis. Acerca desses agrupamentos chegam-nos, ainda, ecos do passado: Os Escaramalhas e os Roufenhos ou Refengos, cabendo a um destes, pela sua ligação à Indústria Conserveira, sair à rua em recepção a um dos proprietários de então, possivelmente o patrão, o ilustre Papaleonardo. Da mesma altura há memória de uma formação de guitarristas e flautistas que integraria mais de meia centena de Soldadores da Indústria Conserveira. 

 

Estas bandas, de percurso efémero e carácter informal, terão coexistido, e rivalizado entre si, num período situado entre meados da primeira década e finais dos anos vinte do século passado. Posteriormente, existiu a banda da Sociedade Filarmónica Recreativa Lacobrigense, conhecida por Sociedade dos Ricos. De vida relativamente curta, foi composta maioritariamente por músicos da banda militar do Regimento de Infantaria 33, ao tempo, sedeado em Lagos. Num período de interregno entre o desaparecimento das bandas civis e a Formação da S.F.L. 1º Maio terá pontificado, de novo, a banda militar. 

 

Os músicos das bandas filarmónicas eram frequentemente convidados para abrilhantarem bailes e festas populares e, para além desta atividade de carácter público e externo dedicavam-se ainda ao ensino da música. Assim terá acontecido com vários músicos militares que com esta atividade reforçavam o seu magro pré. 

 

Os instrumentos de cordas tinham grande aceitação junto do público feminino, era o caso do bandolim e do violino. A viola e os instrumentos de sopro como a flauta, o clarinete, o trompete e o saxofone tinham no público masculino os seus principais entusiastas, até porque eram, no caso dos instrumentos de sopro, os mais utilizados nos bailes. A viola e o violino ocupavam um lugar de destaque nas serenatas, então muito em voga, como manifestação de amizade por parte dos músicos, como homenagem ou ainda como simples apresentação de cumprimentos a indivíduos que, independente da sua condição social, mereciam especial deferência. 

 

Dissertar sobre as razões que terão presidido à escolha do nome “Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio” leva-nos, em primeiro lugar, a considerar a ligação ao feriado municipal, neste dia de Maio - que por imposição governamental será alterado nos anos 50. Podemos também admitir a intenção em evocar a tradição do Maio, evento singular e tão arreigado às gentes de Lagos que no quinto mês do ano davam grandes passeios às hortas e às praias, folgando e festejando, com a natural jovialidade e alegria que caracteriza os algarvios. A esse propósito transcrevemos um texto antigo que nos elucida acerca da tradição do Maio.

 

Contam alguns praguentos que nesta cidade aconteceu um caso estranho e digno de memória, dizendo que antigamente os moradores dela costumavam festejar o primeiro dia de Maio vestindo um estrangeiro com os mais ricos vestidos, que lhe podiam achar, e todo coberto d’ouro, de muitas joias, cadeas, braceletes, anéis e peças de muita valia, que lhe cosiam por cima dos vestidos, o faziam cavalgar no milhor cavalo, e todos com suas trufas na cabeça, adargas nos braços e suas lanças, andavam com ele por toda a cidade, e diante dele iam homens, tangendo em frautas, e muitas mulheres cantavam e dançavam, e diziam todos: Viva o nosso Maio. E tendo feito Maio a um estrangeiro, ornado e posto a cavalo, e dizendo-lhe, fora da cidade, que corresse, apertou as pernas ao cavalo e fugiu com todas as joias e peças ricas da terra em Maio, e, por causa daquele homem, lhe chamaram mês, que não devera, em memória da grande perda, que tiveram3

 

Apresentada a lenda lacobrigense do “mês que há-de vir” devemos, por outro lado, considerar ainda a hipótese dos seus fundadores terem pretendido evocar a condição social e profissional da maioria dos seus membros - comerciantes, empregados de comércio, operários e trabalhadores em geral - animados pelos ideais de cunho popular e universalista propagados pela República parlamentarista e que então se achavam  comprometidos pela vigência da Ditadura Nacional (em 1931 era Presidente da República o General Carmona e o Dr. Oliveira Salazar era Ministro das Finanças). 

 

Nesse sentido, a referência ao Dia Internacional do Trabalhador colheria as simpatias da população de um município que desde os primeiros momentos da República marcara a sua presença de forma indelével - participando massivamente nas eleições, votando maioritariamente no partido democrático em 1910 e elegendo deputados locais à Constituinte de 1911. 

 

Mas, se em 1931 foi possível fundar uma associação cujo nome incluía a data da comemoração do Dia Internacional do Trabalhador, dois anos mais tarde tal já não seria permitido pelo Estado Novo, instituído com a promulgação da nova Constituição em 11 de Abril de 1933. Tal denominação iria, por este facto, ao longo da história da associação, trazer-lhe dissabores – chegando mesmo a colocar em perigo a sua continuidade. Recordemos que em 5 de Julho de 1932, Oliveira Salazar assume a chefia do Governo concluindo a instauração de um regime que conformava “...um Estado com uma doutrina totalitária...”4 que, nos doze meses seguintes, reorganiza a censura prévia, cria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e, em Setembro de 1933 “...lança-se, finalmente, ao assalto frontal do movimento operário com a promulgação da legislação corporativa”5

 

Em 22 de Setembro de 1950, o Governo Civil de Faro oficia a Câmara Municipal no sentido da autarquia promover a alteração da data do feriado municipal, alegando não se tratar de um dia festivo e contrariar o Código Administrativo. A Câmara entende manter a data por ser uma tradição centenária, logo um dia festivo, e porque essa alteração “constituiria motivo de desagrado para a população”6

 

A apoiar esta teoria, temos a própria constituição do elenco de fundadores, o qual integra vários membros da classe laboral a par de alguns nomes da burguesia local e profissionais de atividades a que hoje chamamos liberais. Um outro fator reforça esta ligação do mundo laboral à fundação da filarmónica: a sua primeira sede funcionou no Clube Recreativo Metalúrgico Lacobrigense, sito na Rua 1º de Maio. E assim, também este fato sugere outra hipótese para a escolha da denominação da associação: a toponímia da rua onde a associação esteve sedeada. Dois fatores, no entanto, reforçam as dúvidas. Em primeiro lugar parece-nos estar perante o velho dilema do ovo e da galinha, isto é, a rua também poderia ter mudado de nome em função da nova associação aí alojada – antes do nome 1º de Maio, chamou-se Rua Triste. Em segundo lugar temos o caráter temporário da sede que, não sendo propriedade da S.F.L., mas sim de outra coletividade, retira a plausibilidade da relação entre o nome da rua e a denominação escolhida para a sociedade. Não nos parece pois, hipótese suficientemente consistente. 

 

Quando questionamos os elementos mais antigos da Filarmónica acerca da razão que terá conduzido à escolha do nome da sua associação, de imediato recebemos como resposta que foi no dia 1 de Maio que a Banda saiu à rua pela primeira vez e que esse fato terá dado origem à sua denominação. O 1º de Maio de 1931 ocorreu a uma sexta-feira e, sendo certo que só um dia feriado ou fim-de-semana permitiria a necessária disponibilidade dos filarmónicos para atuações, tendo a escolha recaído sobre o feriado municipal em detrimento do fim-de-semana imediatamente sequente, tal escolha reforça a ideia de uma ligação intencional a essa data, Dia da Cidade e/ou Dia Internacional do Trabalhador.

 

Os Estatutos da S.F.L. 1º de Maio, aprovados oficialmente por Alvará emitido pelo Governador Civil do Distrito de Faro em 24 de Agosto de 1932 foram subscritos por 21 signatários: Francisco Queiróz Taquelim; António Luiz Castelo; Jacinto Norberto Alves, Manuel Portelada; António Pedro Pião; Dionel Carmo Cerol; Augusto  Germano da Costa; Romeu Amável Carreta; Manuel Galvão; Domingos Francisco Passarinhos; José Viegas Pereira; Jerónimo António Monteiro; Francisco José Mesquita; João Miguel Palanque; António Morais da Silva; Artur Pereira; Raul Taquelim da Cruz; Bento Formosinho; Manuel Domingos Pereira; Armando da Glória Martins e Alberto Reis Leal. 

 

A Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio, associada da Fundação INATEL – CCD N.º 4921 foi,  reconhecida como Colectividade de Utilidade Pública em 17 de Setembro de 1988 e foi agraciada com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Prata, em 27 de Outubro de 1991 como reconhecimento pelo seu trabalho no âmbito sócio-cultural. Em 1 de Maio de 2006, ao completar 75 anos de existência recebeu a Medalha de Mérito Associativo – Grau Prata, atribuída pela Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, da qual é associada.

 

A Banda da S.F.L. 1º de Maio em meados dos anos 30 

 

As instalações, os coretos, e outros locais de atuação 

Desaparecidos todos os fundadores da Filarmónica, torna-se muito difícil reconstituir alguns dos fatos ligados aos primeiros momentos da sua história. Atualmente a S.F.L. 1º de Maio ocupa o edifício Conde Ferreira, antiga Escola Primária, situada na Praça d’ Armas, a poucos metros do amuralhado, integrada no perímetro histórico da cidade. Antes, terá ocupado o número 32 da Rua dos Camachinhos, durante um breve período, após a saída do nº 34 da Rua 1º de Maio (antiga Rua Triste) e antes disso, durante a década de quarenta esteve “hospedada” na sede do Clube Recreativo Metalúrgico Lacobrigense. As instalações que terá utilizado em épocas mais remotas, nos primórdios da sua existência, constituem incertezas e referem apenas a utilização da sede do Clube Futebol Marítimo “Os Lacobrigenses". 

 

A sede da Filarmónica foi sempre, à imagem do que acontece noutras associações coevas, um espaço de convívio e lazer onde se reuniam sócios e não sócios. Os visitantes podiam – depois de serem apresentados e obtida a necessária autorização – frequentar a sede durante os quinze dias seguintes, e participar em atividades lúdicas em torno de jogos de mesa e de salão como o bilhar, as damas, o gamão e as cartas. 

 

Desde o início contou, no seu património, com vários jogos e mobiliário adequado a essas atividades de lazer. O Inventário dos Móveis e Utensílios Existentes, elaborado em 26 de Setembro de 1938, dá-nos conta da existência de um vastíssimo património móvel proveniente a título de empréstimo, da Associação Comercial e Industrial de Lagos. Património que incluía: 1 Bilhar; 1 Relógio de parede; 12 Quadros com vistas de Lagos; 7 escarradeiras de esmalte; 48 cadeiras; 1 jogo de Gamão; 2 jogos de Dominó. E em 1953 juntava-se novo material entretanto adquirido pela associação, destacando-se a telefonia Hornyphon de 6 lâmpadas (válvulas).

 

A empatia existente entre a Filarmónica e a cidade, e a forma como a população se identificava com esta associação pode ser representada por inúmeros episódios, mais ou menos inesperados e pitorescos. Um dia, um marítimo – simples e modesto pescador como muitos outros que dessa forma governavam a vida em Lagos – entrou, descalço e em trajes menores, pela sede adentro. Pretendia apenas uma sanduíche de moreia, à laia de “mata-bicho”. Ir à Filarmónica “comer uma bucha" fora pois, a sua principal preocupação, logo ao saltar para terra, depois de uma noite na faina do mar. 

 

Fachada da actual sede, a antiga Escola Primária Conde Ferreira

 

As receitas do bar da Filarmónica, tal como as outras fontes de rendimento eram certamente muito magras e assim, sempre que possível, procurava-se aumentar esses proveitos recorrendo a actividades no exterior. Atente-se ao seguinte excerto da acta de Reunião da Comissão Administrativa do Município em 22.08.35: "...Foi lido um ofício da Direcção da Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio, pedindo autorização para armar uma quermesse na Praça da República, ao lado do Sul, a fim de funcionar nas noites de música, destinando-se a receita a melhorar as condições de vida da mesma Filarmónica. - A Comissão deliberou conceder a autorização solicitada..." .

 

Podemos dizer que a vida dos filarmónicos, enquanto tal, sempre se dividiu entre a sala de ensaios na sede e as atuações nos coretos, nas arruadas e nas procissões. Estas últimas, ocorriam um pouco por toda a parte, nas ruas da cidade, nas aldeias do concelho e até mesmo noutras terras. A procissão do Senhor Morto saía da Igreja das Freiras (das Irmãs Carmelitas), passava por algumas ruas da cidade, percorrendo o circuito dos passos (parte da antiga Via Sacra) e regressava ao ponto de partida. A participação da Filarmónica era imprescindível pois a procissão decorria ao som da marcha fúnebre de Schubert que a Banda executava durante o trajecto. 

 

Lagos possuiu dois coretos que se localizaram no mesmo sítio, embora em épocas distintas. O local, a Praça da República foi, por esse motivo, conhecida por Praça da Música e constituía a sala de recepção de acontecimentos populares, culturais e recreativos, reservando-se a Praça Gil Eanes para as recepções oficiais pelo que, neste local, a Filarmónica tocava apenas os hinos adequados à circunstância. O coreto, situado em frente da Igreja de Santa Maria, mais ou menos onde hoje se encontra uma esplanada recebia, quer a Banda Filarmónica, quer a Banda Regimental que aí executavam a sua música e animavam matinés e soirés de fins-de-semana. Durante um certo período a Filarmónica exibiu-se aí, também, às quintas-feiras à noite. Os concertos nocturnos ocorriam com frequência e muitas vezes como corolário de uma procissão ou outra celebração religiosa iniciada durante o dia e que desta forma terminava em festa. Por volta de 1946/47 vários eram os músicos que não se apresentavam no coreto, ao lado dos seus colegas, devido à grande falta de fardas. Só muito posteriormente esta situação seria remida e afastada como problema endémico na S.F.L. 1º de Maio.

 

Coreto antigo existente na Praça da Música

 

O primeiro coreto, construído com base em alvenaria e superstrutura metálica, de dimensões mais modestas que o segundo, terá sido destruído antes da formação da S.F.L. 1º de Maio para dar lugar ao novo coreto, construído no mesmo material mas maior, mais alto, e com mais espaço para receber a banda e guardar apetrechos no seu interior. Infelizmente, a construção da avenida marginal e a colocação da estátua do Príncipe Navegador, em 1960, terão justificado a remoção do simpático coreto que, assim, desapareceu para sempre. 

 

No primeiro ano do novo milénio Lagos inaugurou um coreto, de construção modesta e localização deficiente, não obstante situar-se num pequeno parque urbano adjacente à artéria da cidade que ostenta o nome da filarmónica local e para onde se prevê a implantação da futura sede da Associação.

 

O coreto actual, situado nas proximidades da localização da futura sede da S.F.L. 

 

Os repertórios 

Inicialmente, e durante uma primeira fase da sua historia, as filarmónicas ainda sob uma forte influência das formações musicais militares executam marchas e peças de adorno de cunho marcial, hinos e peças adequadas a pompas e recepções a entidades oficiais, mas sempre misturadas com a execução de temas de carácter popular, pois não podemos esquecer que estamos perante formações de índole popular. Imutável, permanece a presença dos temas religiosos nas bandas, pois que uma das atribuições maiores destas formações musicais consiste em acompanhar festas de carácter religioso ou profano.

 

Também a influência da música clássica marcou, e marca, presença nos repertórios das filarmónicas, como resultado de arranjos escritos por alguns maestros mais eruditos quer por importação de partituras produzidas e divulgadas no estrangeiro. 

 

Numa banda filarmónica, a maior parte dos instrumentos são transpositores. Isto é, os diferentes instrumentos tocam para que a sonoridade seja única, como se fosse apenas um instrumento a tocar: p. ex. se o clarinete (armado em Sib) dá um Dó, o baixo (armado em Mib) tem de dar um Sol. Se ambos executarem a mesma nota, não combina, não afina em termos de tonalidade. Esta é uma particularidade das Bandas Filarmónicas que as distingue de outras formações musicais de semelhante cunho popular. 

 

Actualmente assiste-se a um fenómeno evolutivo no âmbito dos repertórios. As Bandas Filarmónicas abordam vários domínios musicais desde a música popular, aos arranjos de música tradicional, erudita e ligeira. Há uma maior abertura a temas modernos provenientes da música pop-rock e mesmo o Jazz possui hoje maior influência nos repertórios das bandas filarmónicas. Veja-se o caso das bandas açorianas que, mercê da estreita ligação à emigração para os Estados Unidos, recebem esse tipo de influência, incluindo nos seus repertórios temas mais complexos como algumas peças de Thelonious Monk, entre outros. Por vezes são, também, os músicos que tendo começado nas filarmónicas e progredido para o JAZZ, acabam por exercer nas Bandas Filarmónicas, de que não se desligam completamente, a influência musical resultante da sua evolução e das novas experiências que adquirem.

 

Podemos dizer que se vai esbatendo, paulatinamente, o arcaísmo existente entre as bandas portuguesas e as dos países vizinhos que, na segunda metade do séc. XX, avançaram pela reconversão musical aproximando-as de outras formas musicais, numa interpretação mais ao gosto do público. Factor importante, pois na escolha dos repertórios reside, em grande parte, a aceitação da banda filarmónica, nomeadamente por parte das gerações mais novas.

 

Trabalhos interessantes têm sido feitos pela Europa fora, com resultados muito válidos na recuperação de temas do folclore e sua adequação a formas musicais modernas. Assiste-se pois a uma certa reconversão da fórmula tradicional da Banda Filarmónica, ainda que o fenómeno não seja universal e algumas filarmónicas não mostrem ensejo ou capacidade para encetar essa conversão. 

 

Do repertório referenciado em arquivo, e em uso em finais dos anos oitenta, constam: 185 marchas (marchas graves, marchas populares e marchas fúnebres); 16 rapsódias; 17 fantasias; 44 valsas; 27 passo dobles e tangos; 13 fados; 4 viras e corridinhos; 21 polkas; 4 boleros; 7 óperas e operetas; 3 sinfonias; 5 aberturas; 2 suites; 7 árias; 10 foxtrots; 5 hinos; 3 passo calle; 5 cancões; 2 bailados; 3 serenatas. 

 

 A Sociedade promove, desde os finais da década de setenta do século passado, o tradicional cantar de reis numa jolda composta por elementos da banda da Sociedade e do Grupo coral de Lagos e desde 1984, um festival de bandas civis que, em 2007, adotou como subtítulo "Maio da Música" e que desde a sua 1.ª edição não sofreu interrupções sendo, hoje em dia, considerado um dos maiores eventos realizados em Lagos na área da música. 

 

Outro interessante evento inscreve-se na área da poesia, com a realização dos Jogos Florais. De carácter bienal, é tutelada por uma figura relevante da história da associação, elevada a patrono, do qual é apresentada uma breve biografia. Invariavelmente, as suas edições – iniciadas em 1999 – recolhem participações em cinco modalidades: prosa, quadra, soneto, poesia livre e décimas. Concorrem largas dezenas de poetas amadores, nacionais e estrangeiros, com destaque para os brasileiros. Outro evento interessante dentro da mesma área é o Encontro Regional de Poetas do Algarve que foi criado em 2008 para preencher o vazio do ano em que não se realizam os Jogos florais.

 

 Músicos e instrumentos 

Atualmente, a Banda é composta por cerca de quarenta cinco músicos, sendo 90 % jovens com idades compreendidas entre os 9 e os 22 anos, repartindo-se equitativamente por ambos os sexos e pelos vários instrumentos, todos formados na Escola de Música da Sociedade. 

 

No que concerne à distribuição dos instrumentistas pelo tipo ou naipe de instrumentos, a composição da Banda inclui 11 clarinetes, 3 saxofones altos, 3 saxofones tenores, 1 saxofone barítono, 4 trompetes, 3 trompas de harmonia, 2 bombardinos, 4 trombones, 1 contrabaixo, 1 tuba, 8 percussionistas.

 

 filarmónica e o ensino da música 

Um estudo realizado em 1998 pelo INET (Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa) estabelece a distribuição da expressividade dos vários tipos de Grupos Musicais Locais tendo por base um universo de 3.720 grupos activos. “A seguir aos Ranchos Folclóricos, são as Bandas Filarmónicas que têm maior expressividade, visto que representam 21% (789 Bandas e Fanfarras) do total dos grupos que constituem o universo de pesquisa...” 7.

 

O papel mais importante desempenhado pelas filarmónicas nas comunidades respeita, sem dúvida, além da formação de homens, à formação musical. Alguns estudiosos da musicologia não hesitam em qualificar esta acção das filarmónicas como “uma rede paralela de escolas de música em todo o país”. Quanto a nós a afirmação só peca por defeito, pois ainda que hoje se assista à implantação de inúmeras escolas privadas e ao crescimento do número de academias e conservatórios, porém, num país que nunca teve uma educação musical estruturada e onde um instrumento musical é considerado um artigo de luxo, as escolas das filarmónicas foram, e ainda são em larga medida, a grande rede de ensino da música em Portugal e, de todas, aquela que ainda hoje detém o maior número de alunos em todo o país.  

 

Na Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.º de Maio, em Lagos, a Escola de Música sofreu, a partir dos finais de 2006, alterações profundas no seu modo de funcionamento deixando o tradicional método de ensino onde o  Maestro era o único professor da escola lecionando simultaneamente instrumento e formação musical (solfejo). Assim, foi iniciado um novo ciclo o qual implementou o ensino especifico nos vários instrumentos que compõem a banda, desde a flauta à percussão e à formação musical, ensino que por via das muitas dificuldades passou a ser pago  mas que permitiu à escola de música evoluir não só em qualidade de ensino como em número de alunos cerca de 40 em 2011. 

 

 As fontes de subsistência 

Sem o auxílio da Autarquia não seria possível a sobrevivência da Filarmónica quer pelo magro rendimento das quotizações, quer pela ausência de hábitos de mecenato e patrocínio de que a nossa sociedade enferma. Assim, é nos subsídios e nos protocolos com a Câmara Municipal e com as Juntas de Freguesia que a Filarmónica vai recolher os fundos necessários ao seu funcionamento. Não raras vezes,  reconhecendo na atividade da Filarmónica o triplo papel de difusora da música, construtora de espírito de disciplina e camaradagem, e uma embaixada da comunidade, onde quer que se apresente, o apoio da Autarquia vai mais longe, quer na disponibilização do espaço para sede e sala de ensaios quer no transporte para as deslocações.

 

Os serviços cobrados e as receitas de quotização representam um rendimento modesto mas que não deixam de ser importantes pois é com esses proveitos que se suprem parte das despesas correntes. Procissões, concertos específicos com entradas pagas a que se juntam as receitas da Escola de Música constituem, em conjunto com os diversos apoios recebidos, as fontes de rendimento com a quais a Filarmónica, com vida sempre difícil e espartilhada pelos elevados custos inerentes à sua existência: custos com a Direção Artística, com o ensino, com os instrumentos e com as respetivas reparações, custos com  os diversos consumíveis (palhetas, partituras etc.) custos com instalações de razoável dimensão, fardamentos, deslocações. 

 

Outra fonte de receitas provém da realização de festas de cunho popular nomeadamente os baile, os mastros dos santos populares, em que a quermesse, com as suas rifas, e a venda de bebidas, sardinhas assadas e os tradicionais caracóis, contribuem para o acréscimo desse magro pecúlio. 

 

No saldo final, ressalta a realidade de uma existência difícil, em que o tecido empresarial, pouco sensível ao mecenato, por razões de escassez de recursos ou, mais comummente, por razões de cultura, raramente participa no apoio a instituições deste tipo.

  

A filarmónica e a comunidade 

A Filarmónica em Lagos continua a suscitar o reconhecimento da sua comunidade, não obstante existirem no concelho mais de seis dezenas de associações culturais, recreativas e desportivas. A S.F.L. 1º de Maio conta actualmente com 429 sócios.

   

Muito para além da sua atividade principal, a filarmónica de Lagos desenvolveu, em momentos vários da sua história, esforços, no sentido de integrar e despoletar dinâmicas de caráter mais alargado no âmbito cultural local. Não é de estranhar, pois, ter estado na origem da criação de outros grupos e associações culturais como foi o caso do Grupo Coral de Lagos. Desse facto dá-nos conta o jornal mensal “ O Nosso Jornal”, em dois artigos inseridos nas edições de Agosto e Novembro de 1976. Transcrevemos um excerto deste último.

 

No ano de 2006, “...A Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1º. de Maio, comemorou 75 anos de existência. Uma efeméride histórica em qualquer associação. Na Filarmónica, estes setenta e cinco anos têm um valor especial porque revelam uma actividade ininterrupta da banda. Esteve sempre presente nas efemérides mais importantes do nosso Concelho. Nas recepções oficiais, nos acontecimentos mais relevantes como a inauguração da avenida, a inauguração da barragem da Bravura e as comemorações Henriquinas no início dos anos sessenta: nas grandes festas e romarias que se realizaram em Lagos, como as festas de São Gonçalo e da Senhora da Piedade; as celebrações da Páscoa e os cortejos de oferendas para o Hospital da Misericórdia, entre muitos outros. A Sociedade Filarmónica tem sido, ao longo da sua existência, uma das coletividades com mais realizações culturais, recreativas, e de cariz tradicional. Desde a sua fundação, com os grandes bailes populares abrilhantados por grupos formados na filarmónica, as disputadas marchas populares, as festas da serração da velha, os grupos de cantares de janeiras, as festas de S. João e os vários concertos da banda. Mais recentemente, com os Festivais de Bandas Filarmónicas, os santos populares, os cantares dos Reis, os jogos florais, os encontros regionais de poetas e os espectáculos de variedades. Com um passado histórico brilhante, a Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio encara o futuro com muita apreensão. A crise que se instalou a nível global é a principal razão desse estado de espírito, no entanto, e após vários anos de indefinições, foi garantido pela Câmara Municipal de Lagos, que a Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1º de Maio seria instalada, definitivamente, no espaço que sobrar do Bolo C da Escola Secundária Júlio Dantas, após as obras de ampliação da referida escola. Este fato veio trazer uma lufada de ar fresco à Filarmónica já que o espaço garante as condições necessárias para o ensino da teoria musical e instrumental sem as quais seria impossível mater a quantidade de alunos que frequentam a escola de música, bem como na qualidade do ensino" o qual permitirá dotar a Banda e os demais grupos musicais de excelentes instrumentistas. O espaço permitirá, ainda, receber condignamente não só os associados mas todos os amigos e participantes nas atividades da Filarmónica.

  

  O Sr. Edgar da Conceição Santos, Director Artístico contratado em Novembro de 2006, implementou um método de ensino diferente o qual levou à criação de um “Grupo de Percussão” que fez a sua apresentação pública no dia 4 de Outubro de 2007 no decorrer do um espectáculo integrado nas comemorações do Dia Mundial da Música. O mesmo Grupo actuou, em 2008, na Ovibeja e, em parceria com o TEL, Teatro Experimental de Lagos, em vários eventos dos quais destacamos, Feira Quinhentista em Lagos, Festival de Teatro de Rua de Esmoriz, IPJ de Faro e Centro de Férias do INATEL de Albufeira integrado na atividade “Sul em Movimento”.

Em 2009, a Banda da Sociedade, iniciou o trabalho com cordas apresentando-se, pela primeira vez, com formação sinfónica, em Maio do mesmo ano, no Concerto Comemorativo do 78.º Aniversário da Sociedade.

No dia 2 de Outubro de 2009, num espetáculo integrado nas comemorações do Dia Mundial da Música, apresentou publicamente o recém-criado Ensemble de Saxofones.

 

Entre 1 e 30 de Outubro 2010 a Banda Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.º de Maio foi dirigida pelo Sr. Prof. Cristóvão.

 

No início de Novembro de 2010, o Sr. Edgar da Conceição Santos, responsável pela Escola de Música, assumiu interinamente a direção da Banda da qual é o atual Maestro Títular.

 

 

Concerto do 80º Aniversário - dia 30 de Abril de 2011 - Centro Cultural de Lagos